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No dia 16 de julho, os EUA impuseram um novo tarifaço ao Brasil. Do outro lado do mundo, a China lançava uma iniciativa de cooperação.
Na manhã da última quinta-feira, o US Trade Representative (USTR) anunciou o novo tarifaço brasileiro, acompanhado de uma extensa lista de exceções. O mais recente ataque ao Brasil contou com a participação do Secretário de Estado norte-americano Marco Rubio, que não se furtou de ir ao X para fazer graves acusações contra o País e contra o governo brasileiro. Enquanto isso, em Shanghai, representantes brasileiros participavam do lançamento da World Artificial Intelligence Cooperation Organization (WAICO), iniciativa patrocinada por Xi Jinping. Ou seja, os Estados Unidos passaram o dia preparando uma lista de países para punir. Já a China resolveu preparar uma lista especial de convidados para integrar seu novo clube. O Brasil foi alvo de ambos.
A versão fácil e equivocada dessa história é dizer que o Brasil está se voltando para a China diante da hostilidade norte-americana. É importante resistir a essa interpretação. Afinal, o multilateralismo pragmático que jamais deixou de ser a preferência da política externa brasileira—à exceção do governo de Jair—não escolhe lado. Contudo, ao longo dos últimos doze meses, os Estados Unidos ensinaram ao Brasil a desconfiar de qualquer coisa que venha de Washington. Agrados trumpistas têm preço, assim como os petardos a nós dirigidos.
Há alguns dias, escrevi sobre o modelo de linguagem AMALIA, recém-lançado por Portugal. Em Lives e artigos aqui no Substack comentei que os europeus, à exemplo de Portugal, bem como países de outras regiões, têm tratado as IAs como bens públicos, isto é, de modo similar ao que usamos para tratar a distribuição de energia elétrica, além de outros serviços públicos. A tese econômica por trás desse tratamento é fácil de explicar. Modelos de linguagem open-weight, como o AMALIA, podem ser usados por qualquer pessoa no mesmo instante, de modo não-rival—a forma técnica de dizer que o meu consumo não entra em conflito com o seu. Ao mesmo tempo, modelos de linguagem abertos também são não-excludentes, o que significa que todos podem desfrutá-los simultaneamente sem que isso gere problemas para ninguém. A definição clássica de um bem público caracteriza-o precisamente como um bem não-rival e não-excludente.
Os Estados Unidos estão construindo sua indústria de IA com base em princípios distintos. Modelos fechados, de propriedade privada, sujeitos a assinaturas precificadas em dólares, e que podem ter o uso revogado a qualquer instante, como vimos recentemente acontecer com o Mythos e o Fable da Anthropic. “Revogados a qualquer instante” por vontade das empresas ou do governo de Donald Trump é risco que nenhum país sensato deveria correr. Não à toa, a China se posicionou de outra forma.
Na batalha para ver quem dominará a indústria global de IA, os chineses entenderam que a cooperação vale mais do que o conflito. Na mesma semana em que lançaram o WAICO, a empresa chinesa Moonshot publicou o modelo Kimi K3, de pesos abertos e que conta com cerca de 3 trilhões de parâmetros. O download do modelo é gratuito, e o uso de tokens custa uma fração do preço dos modelos mais avançados da OpenAI e da Anthropic. De um lado, produtos caros governados por um país que já mostrou não ter respeito por ninguém. De outro, um produto da mesma qualidade, que pode ser reconfigurado para atender às necessidades diretas dos usuários de diferentes países e que não pode ser atropelado por factoides políticos.
Xi Jinping nadou de braçada. Durante o anúncio da WAICO, advertiu sobre “as novas injustiças históricas” associadas ao acesso aos LLMs e prometeu “uma sinfonia de cooperação internacional”. Ainda que seja impossível resistir àquela clássica virada de olhos—tenho muita dificuldade de controlar minhas expressões faciais—, duas coisas são certas: não dá para aplicar uma tarifa a uma sinfonia, menos ainda sancionar um download. A China entendeu claramente que, nesse século XXI dominado por um EUA ensandecido, o instrumento de influência mais barato é um presente que se transforma em padrão. O bem público oferecido de graça por um governo autoritário continua sendo um bem público. O bem privado oferecido a um custo elevado por um governo “democrático”, volátil, hostil e pouco confiável é…um risco que ninguém quer.
A cartilha norte-americana não está preparada para os presentes chineses. Mesmo que tenham tentado frear o desenvolvimento dos modelos da China com proibições e limitações às exportações de chips, os EUA fracassaram. Afinal, os mesmos controles de exportação acabaram por criar incentivos para que os chineses tentassem dominar a corrida com os EUA com base na eficiência e na abertura. Eficiência e abertura já nortearam, um dia, a política industrial norte-americana. Tais tempos ficaram no retrovisor. Usando uma metáfora de Copa do Mundo às vésperas da final do campeonato, os EUA jogam como a acovardada Inglaterra, enquanto a China expressa a raça e ousadia da Argentina. Em vez de gols, conseguiu, no último dia 16, cerca de 29 assinaturas de países ao redor do mundo. Enquanto isso, os EUA distribuíam cartões vermelhos aos outros e amarelos a si—a lista de exceções do Brasil, afinal, foi uma confissão de vulnerabilidades econômicas do país de Trump.
Para o Brasil, um alerta. A entrada no clube de Xi Jinping não é a salvação da soberania nacional. Contudo, a participação nos dá poder de barganha ao mostrar aos egos de Washington que o Brasil tem opções e irá exercê-las.
Houve um tempo em que os Estados Unidos entendiam que a maneira de exercer a liderança tecnológica passava por institucionalidade, respeito, regras claras, abertura e cooperação. Foi assim com o GPS, foi assim com a internet. Aquele país teria passado o dia 16 de julho anunciando a WAICO. O atual publicou uma lista de pontos fracos que o Brasil pode agora usar a seu favor.


Excelente texto sobre a “geopolítica” atual da IA, a classe agradece.
O combate entre a IA privada e fechada dos EUA, contra a IA pública e aberta apoiada pela China, promete ser a batalha digital do século, de proporções armageddônicas.
> no texto, a data histórica do tarifaço 2.0 está correta: quinta 16/Julho. Se o subtitle puder ser editado, merece
>> investir no Kimi K3 em vez do Sonnet 5 é o importante exercício do chamado second vote. O primeiro voto é na urna. O segundo é com o nosso bolso. Nos tempos atuais, o 2V é quase mais importante que o 1V. Guardei o Mastercard na gaveta (Master! Pode isso?), e estou furiosamente usando o Pix. Apesar da mão de obra adicional…