Fazer Nada Tem Custo!
A decisão do governo brasileiro de exercer a paciência e "aguardar momento oportuno" para agir na guerra comercial com os EUA poderá ser bastante custosa.
Amanhã, o tarifaço de 25%. Sexta, mais 12,5%. Em breve, quiçá, mais 12,5%. O total? A recomposição do tarifaço de 2025, ou seja, de 50%. A paciência brasileira está sendo cobrada em prestações.
Amanhã entra em vigor o tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros. O Brasil parece ter escolhido a rota da paciência: registro de queixa na OMC, nada de retaliação por ora, apoio aos exportadores atingidos. Lula diz que “não há pressa”. Entendo a lógica, mas parece-me equivocada. Aqui vai o argumento da forma mais clara que consigo.
Paciência é uma aposta de que alguém aqui em Washington — os tribunais, o Congresso, as “cabeças frias” — resolverá isso por nós. Essa aposta já foi testada duas vezes e falhou em ambas as vezes.
O Primeiro Teste: o próprio Senado americano votou pelo fim das tarifas originais de 50% contra o Brasil. Em outubro de 2025, uma maioria bipartidária, com a adesão de cinco republicanos, aprovou uma resolução que encerra a “emergência nacional” que Trump havia declarado contra nós. A Câmara se recusou a votar; a Casa Branca ameaçou vetar. A iniciativa morreu.
Segundo teste: a Suprema Corte derrubou as tarifas baseadas no International Emergency Economic Powers Act (IEEPA) em fevereiro. Em cinco meses, o governo Trump as reconstituiu parcialmente por meio da Seção 301 do Trade Act de 1974. O dispositivo foi escolhido precisamente porque nem os tribunais nem os procedimentos rápidos do Senado o alcançam facilmente.
E o que a nossa inação comprou nesse meio-tempo? A investigação contra o PIX, designações de terrorismo pairando sobre o nosso sistema de pagamentos e, agora, o tarifaço. A moderação brasileira não foi vista como uma forma de cooperação, mas sim como um convite a mais ataques. É como o governo Trump opera.
Agora acompanhem a aritmética, porque ela é o argumento.
Quando a Suprema Corte derrubou os 50% do ano passado, o governo Trump recorreu a outro dispositivo das leis comerciais para tributar as exportações brasileiras em 10%. Utilizou a Seção 122 do Trade Act de 1974 como uma ponte provisória, com prazo de validade que vence na sexta-feira, dia 24 de julho.
Antecipando-se à expiração da Seção 122, o U.S. Trade Representative (USTR), no âmbito das investigações comerciais da Seção 301 do Trade Act de 1974, introduziu uma tarifa de 25% que entrará em vigor amanhã (22 de julho), recompondo, portanto, a metade dos 50% do tarifaço de 2025.
No dia 24 de julho, entram em vigor mais 12,5% da investigação sobre “trabalho escravo” da mesma Seção 301. A investigação abrange 60 países e o trabalho escravo é a desculpa utilizada. Portanto, a partir do dia 24, cerca de 30% das exportações brasileiras para os Estados Unidos serão atingidas pelos 25% anunciados na semana passada (e tema de duas Lives aqui no Substack) e pelos 12,5% da próxima sexta-feira. Total: 37,5%.
Faltam 12,5 pontos percentuais para recompor os 50% de 2025. Esses provavelmente virão, a qualquer momento, do mesmo modo que veio, ontem, a tarifa de 50% sobre o Canadá: pela Seção 338 do Tariff Act de 1930 — um dispositivo de quase um século, ressuscitado precisamente porque não depende de investigação alguma.
O Brasil tem alavancas, mas alavanca parada deprecia. Cada mês de “paciência” e “momento oportuno” é mais um mês em que os EUA ganham terreno para se descolar justamente dos produtos que a própria lista de exceções classificou como imprescindíveis: o café, o suco de laranja, o ferro-gusa, o nióbio.
Ninguém virá resolver isso por nós. A resposta é nossa, e nós temos instrumentos que fazem o consumidor americano — não o brasileiro — pagar por ela. Trata-se do imposto de exportação sobre o qual falei ontem (a propósito do artigo publicado na Folha de S.Paulo). Enquanto isso, o custo de não fazer nada está sendo cobrado em prestações semanais.


Tenho visto você comentar isso há dias, Monica. Ontem e hoje você foi mais contundente sobre esse assunto. Tomara que alguém esteja sugerindo isso ao Lula.
E a maneira com que o Trump age parece tão errática sempre que parece que ele tem limitações intelectuais. Fico em dúvida pensando que ele parece apenas ser muito egoísta, usando a cadeira de presidente para enriquecer mais. Ao mesmo tempo o povo americano sendo deixado de lado com ele desmantelando ajuda às universidades e acabando com programas de ajuda a gente miserável ao redor do mudo; às vezes gente que os EUA ajudaram a tornar miseráveis.
👏👏. Texto muito assertivo Mônica. No primeiro momento achei bem acertada a postura da diplomacia brasileira em reação ao Tarifaço. Dialogar sem submissão como fez a União Europeia. Por outro lado tudo na vida tem limite com essas novas tarifas a da Seção 301, e a outra do trabalho escravo, já está mais do que na hora de deixar a diplomacia e a parcimônia de lado, e ouvir menos FIESP e CNI e usar a lei da reciprocidade e procurar novos mercados. Até porque o próprio presidente já disse se tem gente que não quer tem outros que querem.